—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!
Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade. Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente. O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel, que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um passo para fugir...
N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança sem mãe.
A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um mar tormentoso!
—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto?
Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso, batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:
—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo!
Arcos, agosto, 86.