—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto, uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração. Vamos á obra que se faz tarde.
Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse:
—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe dar a você!
O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem feroz.
Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente, para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito arquejante do moleiro.
—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio.
Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua victoria, fazendo soffrer a victima.
Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou:
—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo?