—Hade ser aqui.

O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia; pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do inimigo.

Ambrosio continuou:

—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra, todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro? quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão?

E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem responder, escarneceu:

—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.

E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco, atando-o fortemente com cordas.

—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.

Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando estes objectos, acrescentou: