Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade. Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra!
Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava preparado para o sacrificio.
—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco, escochinado, como um porco.
No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.
Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a. A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz, apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos, o seu porte era digno.
—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto?
O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle, mostrou-o á victima, com riso de mau: