É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem, que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!

Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si, conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade. Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam, em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa conventual, até o abbade parava a ouvil-o. A donzella abandonada, o Marinheiro e o Cão fiel eram algumas das poucas cantigas que n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:

—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina que elles não te entendem!...

E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos bailassem, o cego, tocava-lhes a Canninha verde, a Maria Cachucha, o Afasta janota, arreda, e os rapazes acercavam-se das raparigas, formando logo a roda.

Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de consentimento e um dedo no ar:

—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.

Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia. Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e, principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua palavra.

Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante, colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham medo do trovão: