—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.
—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não presta—observou um de oito annos.
—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.
A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem florida. As canções d’esta epoca, o Regadinho, o Pintalhão eram vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes. Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava, pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!
É que se sentia entre corações d’amigos.
N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam, que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo».