Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para todos os trechos lacrimosos, d’uma plangencia terna que se abrissem largamente em espaços constellados. Não valiam tanto os rouxinoes e os melros no meio silencioso das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos. Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos dos ouvintes, José Domingues sentia que elles não comprehendiam bem aquella musica. Se elle podesse, entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do grande artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um chôro copioso e enthusiasta! Rastejar pela terra como humilde verme, era o modo que a sua rudeza achava bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. Porque não procediam assim esses homens que o ouviam? Vinham-lhe suffucações de colera contra os que se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril e ardente como o seu. É que não tinham alma para sentir. Elle humilde, obscuro, rude, apertado entre as paredes d’aquelle buraco, era-lhes superior, comprehendia o que elles não podiam comprehender, tinha em si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra podiam egualar. Vibravam-lhe no cerebro os echos d’aquella musica, a sua commoção era grande, os soluços que não podia evitar apanhava-os nas mãos para não serem percebidos, com medo de perturbar aquella musica celestial!
Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, e no coração repercutiram-lhe os fremitos magestosos d’uma epopeia, quando os primeiros accordes da «Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua imperfeita comprehensão, não se destrinçavam claramente as bellezas accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo em globo, tumultuariamente, como se a lendaria figura da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o por ermos desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra. N’aquella ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, vencia espaços incommensuraveis, passava gloriosamente sobre altos montes, ia em rapido vôo sobre o mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando a realidade na manifestação da dôr; mordia os punhos a ponto de fazer sangue; queria gritar e não podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, n’uma effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava nunca! O canto angelico e suave crescia em profundeza, augmentava em area—era como uma palpitação infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de carinho, o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as forças. E lá era levado de novo, subindo até ficar sobranceiro ás nuvens, conhecendo instantes de paz e de tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como uma cobra ferida.
Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. Prolongaram-se porque era o agradecimento final. Porem, todo esse ruido não pôde dominar um doloroso grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo n’um arranque de ciume, meigo como se fora o ultimo queixume da rola Ophelia.
Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. Um soluçar ancioso continuou e para o logar d’onde elle vinha se dirigiram as pessoas interessadas em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de Guardiam, que não poderam mais chamar á vida!
Janeiro de 86.