—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em qualquer parte. Um buraco que seja, menino.

Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.

O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se estava bem e o cego respondeu agradecido:

—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...

Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho, delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio, estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que se esbate sobre a areia.

Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle. Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador.

Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente, como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres brancos.