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a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho:

—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.

A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o companheiro:

—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo?

Miguel observou scepticamente:

—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem.

—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia.

Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do prelado e do publico.