—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!

—Viva! viva!—acompanharam os outros.

Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E batendo uma palmada no joelho disse com resolução:

—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas!

N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou:

—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar alguma coisa.

Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra, o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava:

Veja lá menina

Se levanta a saia