A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar, abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino, que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto, que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar rapido.

Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso. A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha:

—Não passei muito bem a noite, não.

Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez a maldita dyspepsia—esclareceu.

Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar, nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder, entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se; adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se.

—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase.

Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia enganar-se.

—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de sua magestade não é para sobresaltos.

—E a edade?—argumentou outro.