—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro.
Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo, se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado, o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam.
Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade.
—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o equivalente do que gosamos?—resumiam.
—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!...
Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente. Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus!
—N’esse caso que o pague—concluiam.