Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o sangue tumultuar-lhe nas arterias.
—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de lança!—criticou elle mesmo.
O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como Cellini.
—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na rua—recommendou o medico.
A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por simples vaidade de ser chamada rainha.
Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens, assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste, que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas, os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.
Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei. Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera, expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura.
A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias, as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro, esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas, repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria, devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis, molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas. A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma tranquillidade de stoico.