Viveria em imaginação no seu passado?

Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado. Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder, deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo periodo...

Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo, como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse um fim grandioso.

Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes, atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.

Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta, ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto, como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis, companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida. A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças sobre a sua memoria.

Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio. A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho.