Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover! Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor, parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto.

Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando, timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas. Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do robe-de-chambre, furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante oscilou, o barulho attrahiu um creado.

—Não preciso... não chamei...

Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e reprehenderam-no amoravelmente.

Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.

Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem. Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito tempo.

Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava. Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os actuaes.

Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao jardim.