—Poderei experimentar doutor?
—Com precauções, meu senhor, com precauções.
Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem. Que o deixassem só é que desejava.
—Mas vossa magestade...
—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.
Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este formoso dia de primavera.
O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto, sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:
—Acabou-se.