—Não—respondeu vivamente offendido—era de gente casada. Até creio que de familia muito nobre, cá de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e acreditem os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, a mãe e não lhe deixaram uma de X. Foi então que o major de quem eram parentes e quando ainda era capitão metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio. Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja outra que se lhe ponha adeante. O major depois adoptou-a como filha e trazia-a sempre comsigo.

—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu o meu amigo.

—Não era—certificou com rosto circumspecto—não era, sério. Eu vi-lhe a certidão d’edade, quando se tirou a licença. Era de gente casada e até fidalga, diziam-no todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major para a educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. Mas deu-lhe um saber de truz. Eu nunca vi senhora mais distincta!—repetiu com ostentação.

—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha o seu pataco, impingiu-lha.

Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida esclareceu:

—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu com vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias, não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.

—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi.

—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella, a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella, sem tirte nem guarte, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa, e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por dentro taes esfregações, que não fazem uma ideia! Caramba! até perdi o comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja, que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle demonio tentador, que foi a minha desgraça.

—Era uma paixão—conclui.