—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.

—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja, inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem sacho!»

—E ella entendeu-o?

—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella. Fiquei assim a modo de parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama. Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!» Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno.

—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo.

—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim, para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios. Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores conversassem com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra) ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão cheia, lá isso valha a verdade.

—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão comeu?—perguntei.