—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. Pois a gente não é de pau, é de carne e osso, caramba! Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a comprar charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre a retorcer os bigodes e a dar com o chicote nas calças. Ainda bem conservado, talvez uns dez annos mais velho do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas d’assucar, que lhe queria dar duas palavras, em particular. A minha loja era grande como um armazem! Fazia muito negocio e todos os mezes tinha pagamentos de duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes havia mais que um pagamento. Bah! nem me quero lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella má mulher, que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, não sei onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, ainda perco a cabeça e chacino-a, como se faz aos porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa d’Africa, de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá da primeira camisa que vesti—terminou com desespero.
—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou interessado o meu amigo.
—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, a retorcer os bigodes... Eu que nunca fui medroso, nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os guardas de alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia como varas verdes. Se elle me diz que não, espetava uma faca na minha propria barriga. Porém, não disse. Mastigou em secco... mastigou... que era o diabo; grande differença de edades; ella sempre tinha vivido com muita decencia, mas não tinha nada de seu; que eu precisava de outra mulher... E dava com o chicote pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. Este aranzel puchou por mim e disse: «Ó senhor major, eu bem sei que a não mereço; mas se ella, assim mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios com que lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor não diz que não?»
—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o meu companheiro.
—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. Tinha-a creado; mas não era sua filha. Demais já tinha passado a edade, podia fazer o que quizesse. O que lhe custava era separar-se d’ella.
—Ainda é vivo o major? perguntei.
—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande borrachão. Só o vinho do Porto que elle me bebeu lá da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil réis! Adiante. Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a chorar que a tractasse bem, que elle sempre a educára muito mimosa.
—Estava tudo resolvido.