—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde as tem armadas. Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga e gastei mais de vinte moedas em tudo isso. Foi ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira que chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias voltamos para a terra n’um carro fretado ao Franqueira. Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo que a perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com tristeza. Porque ella não era má, os senhores podem acreditar; mas o janotismo deu-lhe volta ao miolo, como acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos maridos—concluiu philosophicamente.
—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, amigo Lucas. O outro era ahi algum rapaz novo e janota...
—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um gebo como eu! Não me troco! Assim um gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não me troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa fosse para onde algum rapaz novo e bem parecido... vá. Sou velho e não me tenho por home que a mereça. Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda que eu viva cem annos, não me posso consolar! Que posição tem elle?... (interrogou-se). Uma logita alli para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho mulher não ha ninguem que o entenda!
—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua mulher—reflectiu o meu amigo. O senhor tractava-a mal, batia-lhe?
—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! Só o que queria saber é onde ella desejaria passar, para ir beijar o chão onde pozesse os seus pés. Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, era uma santa.
E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:
—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella ingrata! Não está mais na minha mão.
—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como depois de o querer para marido, o regeitou.