—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. A questão é que ella casou comigo, para vir para Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos quatro mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, que não podia viver alli, que o negocio não prestava e como o tal tio já tinha morrido, metteu-me na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar mais dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma asneira. Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por aquella sereia, não tive remedio. Viemos e os primeiros quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se um conto de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo arranjei no hotel da rua da Prata, onde estavamos. Muitos d’esses, hoje, nem me compram uma cautela, só para me não fallarem. No fim d’isto eu que via sumir-se o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de pôrmos uma loja de capellista, onde ella estivesse a vender, para chamar freguesia. Para chamar freguesia!—exclamou indignado e ironico.—O que eu merecia era com uma moca no toutiço! A freguesia de que ella precisava sei eu! Era com um marmeleiro!
—Então foi ahi que ella...
—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do hotel e no theatro da rua dos Condes. Á mesa estava o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer genebra ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou a loja, que foi alli para a Sé, o janota lampana, não me sahia de lá e era dos melhores freguezes de charutos que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e eu que sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei que o negocio não dava para os gastos. No fim d’um anno pouco havia dos cinco contos que trouxera da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha, sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, carros, bailes de mascaras!... E querem os senhores saber?... Foi a desavergonhada (eu a este tempo, sou capaz de jurar sobre umas Horas, como ella ainda não era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves (era o tal!) para elle me aconselhar alguma coisa, em que se ganhasse dinheiro. Fallei n’isso ao cara de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse o que me restava em negocio de vinhos de Torres, que dava muito. Foi até elle que me arranjou conhecimentos. Por este motivo principiei a andar dias e dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre n’uma fona.
—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o para longe.
—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso que toda a gente é de boa fé, como eu!... N’esta coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido muito. Hoje nem o mais pintado.
—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou o meu amigo.
—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, vim a desconfiar d’aquella ingrata peguei de vigial-a e para melhor o fazer vendi todo o vinho de repente e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, tem juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro que a pague!» Respondeu-me que não fosse tolo e voltou-me as costas. Com o fim de estar perto d’ella, arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos afiançaram-me em algumas casas de commercio, para eu andar a receber dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse que havia de ser grande o meu ganho. Eu respondi: «Para o que tu precisares nunca te hade faltar. Ainda que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para os teus alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu quero continuar a ir aos theatros e dar os meus passeios. Não hei de estar toda a minha vida mettida n’um buraco.»
—Tinha aspirações, vê-se.