—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu não lhe merecia o pago que me deu. Trabalhava como um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não havia chuva, não havia vento, não havia calor para mim. Sempre a correr por essas ruas e então que estáfas! Ás duas por tres, cahia-lhe na loja como quem vinha de passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. Os senhores riem-se? É porque não sabem o que isto é. Chegava todo esbaforido, o coração aos pulos no peito, e sempre com aquella mulher deante dos olhos a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, um verdadeiro inferno!
—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.
Respondeu com vivacidade:
—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força dado alguma bruxaria. E que mal me pagou! Já não lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não podia ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia fazer o que fez. Na noite em que, morto de fome e de frio, entrei em casa depois de ter andado todo o dia n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal estava gasta. A casa em desordem, os bahus e gavetas abertas, como se tivessem andado ladrões! Aquella mulher perdida não se contentou em me deixar, levou tudo quanto havia de bom, e fiquei com a triste camisa do corpo. Chorei mais do que quando morreu minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem beber, corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas de pasto e restaurantes, pelos theatros com um revolve carregado a ver se os encontrava. Haviamos de morrer todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue por uma tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um bolo. Se os encontro havia de me vingar até ao fundo d’alma!
—E ainda gosta d’ella?
—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer que não? É o meu peccado.
Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder de nós, voltando-se para a parede.
—Se ella o tornasse a procurar?