No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite. Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal. Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis. O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes, para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26 annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida.
A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima, o vento assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides collossaes, formadas d’assucar.
Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer; pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir, fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor.
A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande, coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura, como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação, o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava perto a enfusa de vinho.
Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre. Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé. Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos, o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme chaminé, negra de ferrugem, abria sobre mim um espaço indefinido, d’uma amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a ponto de quasi se extinguir o meu ser.
Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento. Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações. O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me n’uma amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido? Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me faziam medo; os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado, não podendo sequer encaral-os.
Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços, que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura; mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros, as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da primavera, os gosos familiares, as festas, as vindimas, as amizades... tudo teria acabado para mim?!