Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira, dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção, para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar, sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado.

Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro francamente que esta transigencia nos soffrimentos não me foi muito consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!... Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno, ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!

Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo, o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento concentrico. Sentia que de instante a instante me apertavam mais e mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto.

Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material, servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos, apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me, aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo.

Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas, sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo, a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu processo. Não me lembrava de ter apparecido na sua divina presença; não vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar; não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia, dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissão geral de todo o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar demonios.

Janeiro de 86.