DOIS CATURRAS
Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta regulamentar, o dr. Leandro e frei Antonio, costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre methodicos e taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, para se encontrarem junto da igreja, sem esperarem um pelo outro. A menor falta n’este ponto, um simples minuto de tardança, era caso para recriminações da parte do que chegasse primeiro, recriminações manifestadas em monosyllabos de desgosto e n’uma ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio com pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», «Ficou abarrotado com o jantar», «Isto foi pinga de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela encosta acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas pendentes, e paravam de vez em quando, para tomar um pouco d’ar. Junto da ermida da Senhora do Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, á distancia d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. E o frei Antonio, homem d’um fundo de bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma collina fronteira:
—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o por ser unico!...
Leandro, fingindo que não ouvira, monologava: