—Pena é não haver outro monte igual, do lado d’acolá, por causa da symetria!... Seria incomparavelmente mais bello!
Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. Eram ironias mansas ao fim de muitos annos de argumentos, em viva polemica, esmorraçando mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes juntas com apostrophes. Porém nunca cederam, nem uma pollegada, n’este valioso ponto de esthetica que os separava. Frei Antonio sempre partidario da unidade, da simplicidade absoluta, e por extensão de principio do pernão, detestava o par. Tinha orgulho em ser padre, só por causa do celibato. No seu casaco sacerdotal e na ampla batina usava um unico bolso, para n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...
E justificava-se:
—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que queria. Agora é só metter a mão e prompto. A caixa?... Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o. As chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.
Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um prestimano. Era agressivo e até insolente para todos que lhe não acceitavam a invenção. Mostrava-se propagandista, loquaz, capcioso, argumentado pelo seu lado.
O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente opposta. Pela unidade e por tudo quanto era impar tinha mais do que desdem, tinha desprezo. Dizia, como phrase de sentença, que a natureza nunca podia ser manca. Para irritar o seu amigo, na presença de muita gente, extasiou-se diante da insignificante igreja de S. Francisco, só porque tinha duas torres iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo acintoso e offensivo, e exclamou com os braços abertos:
—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! Como é sublime a symetria!
Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, e respondeu com mal desvanecido azedume: