—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas chuvas tem arrefecido o tempo.

Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote preferisse a morte, era a dormir com outro. Homem gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho, gostava de roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a noite no chão, n’uma mangedoura, ou sobre tôjo!... Desde que outro padre, n’uma estalagem de Tras-os-Montes, o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir e tendo por essa occasião ferido a testa e o nariz nos cacos d’um objecto que se quebrou, nunca mais acceitou companheiro de dormida.

Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O frade disse simplesmente, em tom resoluto:

—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo com outro. Então monto a cavallo e vou-me já, mesmo de noite, embora.

—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... duas?!—disse com ironia o doutor, mostrando-lhe a outra que estava n’um quarto proximo.

E como não concluira ainda a sua argumentação pelos materiaes, quando no dia seguinte, frei Antonio procurava os butes, para ir dizer a missa conventual, a que se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda calcular a significação do acontecimento, veio á porta em palmilhas de meias, e gritou pela frincha que abriu:

—Ó Joanna! O outro bute?

—Pergunte por elle ao senhor doutor.

O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado: