—Mau! mau! mau que m’arrenego!

Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe do quarto:

—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e dei-lho. O amigo tem na realidade dois pés?

Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa e em palmilhas, o grosso tronco batido pela luz da janella do corredor, retorquiu energicamente:

—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá o bute e deixemo-nos de chalaças. Já tocou ha um pedaço. Se essa gente fica sem missa por causa das suas brincadeiras... quero ver.

Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um meio de tirar a desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, que era aonde doia mais ao sovina do Leandro. No Bracarense da vespera annunciava-se a proxima chegada, á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, tão celebre e tão gabada, que alli ia representar no theatro de S. Geraldo. O padre, encobrindo ruins intentos, convidou o doutor para irem a Braga. O advogado chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, porém o ecclesiastico explicou-se com modo circumspecto:

—Não que ella só representa dramas sacros. Nem o senhor Arcebispo, consentia outra coisa, na sua cidade.

Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando ambos este periodo de tregua. O frei Antonio fazia de bolsa. Como era expedito, sagaz e conhecia Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração das finanças communs. Porém, mal conhecia o advogado o que podia dar o rancor d’um frade, que é espicaçado no que elle tem de mais precioso, o appetite. As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns dias na Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico um faro agudissimo de vingança. Logo na diligencia principiou por comprar tres bilhetes, entregando dois a Leandro que observou seccamente: