Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro, que a esse tempo levava uma reverendissima tunda, ás damas, do seu amigo frei Antonio, que as jogava na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo de atirar com o taboleiro para o inferno, e fez na sala tal barulho, que parecia a derrocada d’uma torre. Até ia trilhando o medico Pestana, homem de grande saber e azedume, que lá estava com o seu esqueleto arrumado a um canto, a chupar cigarros, todo concentrado no odio ao recebedor da comarca, por causa da morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira, n’essa noite em maré de fortuna amorosa, parecia um redemoinho pela sala, sempre com o chaile-manta cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que ao vêr muita gente, propôz logo um quino, fallando com o seu ar estarola. Era quem costumava tirar as bolas e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas, que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando a morgada ria até ao engasgamento nervoso. Porém, n’essa noite, D. Michaela preferiu antes ouvir a musica «Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental, adorava esse famoso trecho, que já uma vez a fizera suspirar em Barcellos. Era um idyllio cheio de meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas. Remurejavam brandamente arvoredos, um regato serpeava pela encosta e o poetico rouxinol queixava-se no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é quem fazia de rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira, que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente mais esta occasião de triumphar sobre o medico. Propôz-se a tomar para si a parte do rouxinol, sem nenhum auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor da comarca era eximio imitador de vozes d’animaes e especialmente das aves. Em certos casos o engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente de vacca no quinteiro de Refuinho, que a velha fidalga veio á janella toda afflicta, ralhar com o moço, julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação para o céu, suppondo uma cria distante, reprehendeu-o:

—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um castigo do céu? As vaccas não tem alma—concluiu agastada.

O medico Pestana, concordando em que o recebedor não tinha alma, chasqueou o caso dizendo que o homem, fazendo de vacca ou de boi que era o mesmo, mostrava grande geito para marido.

Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito celebrada; porque ninguem lhe conhecia a prenda. O medico emmagrecia a olhos vistos, quando a morgada dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar exhibiu outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote d’um cavallo que se approxima e relinchou com as ventas altas no momento da chegada; o canto do gallo ao amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido com rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes, a chegada do cuco em maio, os patos arrebanhados, o pardal, o melro, o perú... tudo foi representado. Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem ideias de quino. Tinham para duas horas. O medico passeava ao fundo da sala, sorumbatico e abatido. Frei Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de longe:

—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco?

Todos o desejaram e elle não se fez rogado.

Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido. Vinha sorumbatico e sorna, como um porco ao recolher. Uma creada chamou para a comida: «coxi, coxi, coxi» e logo o Silveira principiou a correr, como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos, gritos atroadores, até que foi para um canto sugar a sua lavagem, com um xou-xou embrulhado e caracteristico. Por fim suppondo-se um porco perseguido por um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo tempo, e sahiu precipitadamente pela porta, dando um encontrão no medico.