Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio agachado a um canto, já não podia mais, e por fim encostou a barriga á parede, com medo d’uma colica. As meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no regaço umas das outras. O desembargador Xavier sorria de longe com dignidade, olhando firme, com os seus occulos d’oiro.

Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião e disse-o claramente, que se aquelle phenomeno se exhibisse no Palacio de Cristal, haveria grande concorrencia, porque era, em verdade, admiravel! D. Michaela, que applaudira até as lagrimas, perguntou ao academico:

—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha e pôr ovos?!...

—Nunca vi, senhora morgada...

—Então!...—concluiu com um entono que significava preço—nunca viu nada!

Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse esta habilidade; porém elle sentado n’uma cadeira, a limpar o suor do cachaço, não estava para isso. Sentia-se cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos seus convivas, disse mesmo sem se levantar:

—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja.

Não hesitou um momento. Um raio de vingança triumphante despediu-se do seu fulvo olhar contra o medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala. Porém isto, que todos julgaram um signal de covardia não o era de certo; porque momentos depois o doutor tornou a entrar, com semblante conformado.

Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada pessoa o seu logar. As senhoras em cadeiras, em volta da sala, deixaram o canto livre para a postura, que devia ser junto do piano. Os homens que se não puderam sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos das janellas. O medico, talvez para se mostrar generoso e soffrer deante de todos a propria humilhação, occupou a cadeira mais perto do logar da postura.