Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio Silveira assim o entendeu. No meio d’um silencio valioso, depois de apenados dois banquinhos para servirem de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no meio da sala, olhando solemnemente em redor.

Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente!

A principio houve um cacarejar avulso e sem grande significação. Andava em volta dando pulinhos, erguendo a cabeça para ouvir facilmente, e espanejava-se ao sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um cá... cá... cá... reflectido e de concentração. Passados momentos, a voz levantou-se gradualmente mais sonora, tinha gritos estridentes e estendia o pescoço. Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e o corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando afastava os cotovellos. Subiu a um dos poleiros e lá do alto produziu um ca-ca-ra-có, rapido e vibrante, como se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar n’um tom manso e natural, andando em passo grave, seguro de que ninguem o viria perturbar. De repente deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a correr e a gritar desesperadamente, muito arrastado pelo chão, significando a gallinha apertada por uma dôr e com a necessidade urgente de expellir de si qualquer coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas para o lado do ninho insistentes, sempre com as azas de rasto, afastando-se um momento para voltar depois mais precisado.

A situação ia-se tornando claramente dramatica.

O interesse dos circumstantes era cada vez maior. Exprimiam o sentimento de admiração que os possuia, em frouxos de riso apanhados na mão e muitos, boquiabertos, pronunciavam: «Ora!... Ora!...»

A morgada, que estava mais á vontade e não temia perturbar a representação observou:

—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!...