Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava o Silveira foi sublime! Aproximou-se sornamente do canto da postura. Reconhecia-se-lhe na lentidão dos movimentos de parturiente, que se approximava o momento supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida, e um có-có... guttural. Foi enfraquecendo a voz e os movimentos, andando em volta de si mesmo a procurar o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto bruto e informe que para alli estivesse arrumado. Houve um gemer soturno, como o regougar d’um gato.
Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo que apanhava alguma cousa. O Silveira não o percebeu, tão compenetrado estava das suas altas funções de maternidade. Os assistentes, interessados no final da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto que o recebedor se conservou agachado, trocaram-se apenas algumas observações em voz baixa. Mas por fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente e engulindo em secco, como se viesse d’um sonho. Começou a cacarejar com alegria e orgulho em voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente, espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de quem cumprira um dever e se livrára d’uma difficuldade. Esperto, vivaz, altivo, tudo era Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki... para um lado e para outro. E n’uma reviravolta, quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o soberbo Silveira estacou de repente, empallideceu deixando de cantar, os braços cahiram-lhe n’um assombro!
—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente.
O apparecimento imprevisto de dois ovos authenticos no logar da postura, produziu uma gargalhada atterradora! Frei Ignacio, sempre larachista, agarrou no recebedor pelos hombros, perguntando-lhe:
—Então hoje isto foi a sério, caro amigo?!
Porém o medico, cheio da sua vingança, disia ao mesmo tempo a D. Michaela, em voz alta, de modo que todos ouvissem:
—Compre esta gallinha, senhora morgada, que lhe põe aos dois. Olhe que sempre é melhor que a sua amarella!