RENDE-TE CENTURIÃO
Esperava-se que d’essa vez os Passos fossem grandiosos. Tinha chegado no verão um brazileiro, que para engrandecer a terra, concorria com cincoenta libras. O abbade, depois da offerta, affirmou cathegoricamente, que ía fazer reviver a memoria dos Passos do fidalgo do Outeiro, que sessenta annos antes, fizera uns de que fallavam ainda com espanto, os velhos das redondezas! Não havia de faltar nada: teriam muitos anjos, musica da melhor e pregador de fama. Se viessem ainda esmolas, mandar-se-hia armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes imagens do Redemptor, significando as diversas partes da notabilissima Paixão.
—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou o abbade—houve a guarda romana com o Centurião á frente, levando o seu distinctivo de videira como emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados. Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens que se lembram—concluiu, dando grande preço ás suas palavras.
Era n’um domingo, depois da missa conventual. O abbade fallava na sachristia, deante d’alguns freguezes, que o escutavam respeitosamente. O benemerito senhor Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta libras, era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que a somma já apontada era diminuta para se arranjar uma procissão a valer, poz serenamente a luneta, pegou no papel onde estavam lançadas as differentes verbas e leu:
—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta reis. É pouco!—disse. Quanto entende o senhor abbade, que será preciso para se fazer coisa de truz?!
O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia, suspendendo-se do labio inferior por dois dedos. Pronunciou, para si algumas palavras de calculo, resumindo em voz alta: