—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se tudo.
—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu reverendo—concluiu o Guimarães, atirando generosamente com a meia folha d’almaço, sobre o gavetão.
O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de camponez, affirmando-lhe:
—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica; bom côro; anjos; egreja rica; um centurião com a sua guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer vestimentas; e andores de espavento, que eu arranjo a virem de Braga, com imagens e mais pertences. Creia o meu amigo, ponho-lhe ahi uns Passos, que nem na cidade do Porto. Uma riqueza, verá.
—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou o Guimarães, fazendo um gesto largo com a ponteira da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que seja preciso mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau, e bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu abbade, e ponha a coisa na rua. Percebeu?
Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em toda a parte, bem como a sua devoção. Felizmente não era como o traste do Cerqueira, um herege que embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no pela egreja, e até quiz bater no afamado padre Antonio, porque lhe fez uma santa da sobrinha, a Rosaria do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco, por causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado. Ainda bem que o senhor Guimarães não era assim e gastava dinheiro em fazer coisas boas, como ajudar uns Passos de que todos se orgulhavam. Por isso Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre artista, era hoje um fidalgo, tinha palacio e suas filhas usavam sedas. Não tardariam em ver-lhe um titulo e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão larga generosidade e que tão amigo se mostrava da terra. Podia ser como outros, despresar do nascimento obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e não fazer caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva o senhor Guimarães, que ainda hade ser o nosso deputado»—affirmavam com emphase pessoas de consideração.
Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra coisa. Logo no dia seguinte montou na sua egua e foi encontrar-se com a diligencia, que o levaria a Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo que alli chegou entendeu-se com as pessoas que melhores conselhos lhe podiam dar. Depois de varias conferencias resolveu encommendar tudo a um homem da rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação da egreja; os fardamentos do centurião, guardas, figuras e vestidos d’anjos; os cantores para o coro, os andores e até as imagens. Quanto a imagens foi mais difficil; pois que as confrarias entenderam que as não deviam emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo.