Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei, levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que mais ninguem o ouvisse, segredou-me:
—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei.
Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade.
Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para exprimir outro grande affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...
Insisti com modos de incredulo:
—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?
Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa perfeitamente exacta.
—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva.
E acrescentou sorrindo intelligentemente:
—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?...