No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a sustentar perguntei muito baixo:

—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?

A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia, á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu, um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para me consolar acrescentou:

—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componho aquillo e se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidade a todos—sublinhou.

Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso. Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle concluiu:

—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.

—Oh! de certo!...