E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis perguntei-lhe:
—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma coisa?
Sem altivez respondeu:
—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um rôr de seculos e nunca senti fome.
E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:
—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.
—Ah! vocemecê não é de cá?
—Eu sim!...
E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão, abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu! Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...
Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava nas suas palavras: