—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me oito dias a compôr e oito a decorar. É todo novo, acredita.

Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente de longe. Só em casa do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas do Porto, de Braga... o diabo. Mostrava-se preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe esquecesse algum d’esses trechos flamejantes, em que firmava orgulho litterario. Peça meditada, feita com reflexão e calculo. Havia a bem conhecida passagem do centurião, convertido por um toque de divina graça. O padre Silvestre não julgava isto muito moderno; mas foi o abbade que lh’a exigiu, por saber que era do gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No emtanto, entendia o pregador, que essa passagem produziria bom effeito, se fosse convenientemente ensaiada.

—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao abbade.

—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!...

—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã de manha. Bem sabes que isto tem o seu boccado de theatro.

No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão na horta da Residencia, passeando n’um carreiro, por cima do muro. O sol aquecia-o agradavelmente por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na relva, sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais amplos e magestosos! Uma pobre cerdeira, despida de folhas, é que lhe servia de referencia. D’aquelle lado era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e contricto. A Virgem mãe, á direita, banhada no pranto redemptor. Os verdugos, os da guarda romana, os discipulos e todos os amigos de Jesus, lá os significava na vertente do monte ignominioso, que no caso presente era um alcouve de cor alegre.

No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de braços abertos e solemne chamava o divino soccorro, foi interrompido por uma voz:

—Senhor reverendo pregador?—chamaram.