Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua gallinha, salpicão e a tigella de bom caldo, fumegante e appetitoso. Nos tempos em que ha muito serviço divino, não se usam jejuns para quem prega ou canta. Tem dispensa, bem merecida; pois que alguns, como o padre Silvestre, andam de terra em terra, levando a palavra sancta, para converter peccadores. É uma lida de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não vale muito a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas, morriam no fim da quaresma. Era Christo a subir ao ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os brutos, para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia.

—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se nós somos tão tapados é por causa da brôa e do bacalhau.

O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre o prato, levantou a cabeça para dizer:

—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa, para tu comeres.

—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico peitinho—confessou pondo a mão sobre os proeminentes seios. Ao trabalho que lhe tenho.

O abbade continuou troçando:

—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças lesma. Dá p’ra cá a infusa e deixemo-nos de contos.

Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu trabalho n’essa quaresma era extraordinario. Em seguida a esse sermão, tinha outros. Passos em Bouro e toda a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar o do lava-pés, o do enterro, o de lagrimas e o da ressurreição, que é sempre uma predica demorada e cheia de conceitos.

—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã é que mais te custa.