—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é assim como uma pontuada sobre o coração. Entendes? Diz lá.
—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador. Eu já figurei n’outros Passos, lá p’ra Monção—acrescentou com sorriso experimentado. Mas senhor reverendo pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa, logo á primeira que mandar?
—Porque?
—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou, coçando a nuca. É cá por causa da rapaziada, que depois chama podrico á gente.
—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás deante do rei dos reis e do senhor dos senhores. Mas não te rendas logo... logo... Olha bem para mim—detalhou com bondade. Ao primeiro rende-te eu pego no lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e torno a collocal-o no mesmo sitio. Tu reparas em mim, dás uma sacudidella aos hombros, assim, e continuas lá no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo rende-te, repito o caso do lenço mudando-o então—sublinhou—para o meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou no seu lenço de paninho vermelho, conservou-o segundos pendente da mão e depois collocou-o sobre um triste ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco mais sério do que da primeira vez; nova sacudidella de hombros, e continuas lá na tua vida. Sim, porque tu és um grande peccador e a divina graça não te póde tocar assim do pé p’ra mão. Entendes isto?
—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou o filho do Cancella, com o queixo agarrado na mão direita.
—Mas ao terceiro rende-te—accentuou significativamente o padre Silvestre, espaçando as syllabas—quando eu mudar o lenço para o lado do altar mór, tu reparas em mim, com olhos muito arregalados, como quem sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres dás um grande berro, quebras a lança no joelho, atiras-te ao chão de bruços, finges que choras (se te dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!»
O rapaz pronunciou:
—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!