—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor, perdão, perdão» e chorar muito, como é costume.

—Entendi muito bellamente. O peior é se depois me chamam, cagarola e podrico, que me levo de mil demonios.

—E que chamem?—observou o pregador. Então queriam que tu te não arrependesses, depois de tocado pela divina graça? São uns brutos.

Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha de longe. A egreja, os andores e o que se dizia dos anjos era um pasmo! A musica, logo que chegou, foi tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães, que veio á janella, com toda a sua respeitavel familia e hospedes, palitando-se soberbamente. Zé Maximo, o homem das occasiões, levantou um viva ao seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se chapeus ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão, a musica voltou para o beberete, que lhe foi servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em calices, quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os figurantes, que estavam todos vestidos na vasta salla da tulha, á espera do momento, foram enviados dois cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló, outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas. Houve por este motivo grande barulho e algazarra dentro do casarão da tulha.

Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve a delicadeza de lhes ir encher os primeiros copos, como signal de apreço e um rasgo democratico na sua vida faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se engrandecidos dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias e a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos de vinho, com medo de se descomporem nos vestuarios. Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da bocca. Os irmãos do Santissimo, encarregados de os acompanhar, vieram buscal-os para os conduzir á presença do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes da procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e no vinho era feito, pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa, por Caiphás e Pilatos, que se mostravam altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião e os seus doze romanos, que promettiam não sahir d’alli, em quanto houvesse uma gotta nos cantaros e nas garrafas. O filho do Cancella, estava arrogante, animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores, Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras judiciosas do piedoso Simeão, que bebia menos por causa da barba, e recommendava aos outros compostura:

—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana! É melhor voltarmos cá, outra vez, no fim de tudo.

—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião. É dar-lhe, rapazes, até lhe chegar com o dedo.