E de tal modo comprehenderam estas palavras, que ao sahirem da tulha, Cancella e os seus homens, levavam todo o seu animo e arrogancia natural, fortalecida pelo vinho.
—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão da barba, perdendo a suavidade, que era da indole do seu papel.
Os Passos começaram pelas duas horas. O itinerario foi combinado de modo que primeiro que tudo passassem á porta do senhor Guimarães, que seguia o andôr principal, como festeiro. A todas as senhoras que estavam á janella da sua casa d’azulejo, em especial a sua esposa, fez uma larga reverencia, passando ao mesmo tempo a mão na barba. Uma das coisas que mais impressionou a gente postada nos valados, foi o terem os anjos azas! Isso que concordava perfeitamente com o painel do altar mór, que representava a Annunciação, nunca elles tinham visto! E iam todos muito ricos, de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram evidentemente os vestidos em casa de D. Maria de Refuinho, apezar de que os da mulher do sachristão e os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas tinham sido creadas de conventos em Vianna. Cada anjo distinguia-se pela sua especialidade nas insignias de martyrio, em recordações da celebre paixão; era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os pregos para crucificarem o Christo.
Havia dois que conduziam simulacros das escadas pelas quaes os verdugos tinham subido aos braços da cruz. Um rapasote, com altivez para que todos reparassem, sustentava na ponta d’uma canna a esponja que servira ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança com que se abrira o sacratissimo lado. As chagas, em lacre vermelho, iam em salva de prata. A Veronica, rapariga esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, a face penitente e ensanguentada do divino mestre. Quasi no fim iam as tres Marias, todas a par, cobertas de gaze preto e logo a seguil-as, S. João, o discipulo amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. A Magdalena, uma rapariga casadoira, de longas madeixas encaracolladas cahindo-lhe nas espaduas nuas, caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e significava limpar abundantes lagrimas, deitando de vez em quando um riso de soslaio, ás pessoas conhecidas.
Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso do madeiro, e o da Virgem lacrimosa que implorava do ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e humilde logo em frente do Centurião, que commandava com arrogancia os seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos entre os mais espadaudos da visinhança. Orgulhosos dos capacetes prateados, das botas de montar, dos mantos vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente as suas lanças, olhando em redor com provocação. O José Cancella levando a insignia da videira, atiçava-os com olhares tremebundos e modos arrogantes de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia, principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, ameaçava-o com o inferno. A Lindoria, não se teve que lhe não dissesse, quando elle passou:
—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que tu querias!
Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. Pelos modos, parecia ter cabellos no coração, aquelle diabo—diziam todos. Os seus olhares furibundos sobre o Christo, não podiam constituir um peccado? Era realmente de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha a sua desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já ouvira muitas vezes os missionarios. Era fingido, bem se sabia, mas escusava de estar a fazer arremessos de lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso é que ninguem o obrigava.
O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um sarcasmo reprehensivo: