—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te como um sendeiro!

—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque se vamos a isso, arraso tudo a pau.

N’este momento o trombeteiro deu signal para continuarem. Ao longe ouvia-se o alarido dos rapazes, que admiravam os prodigios de força, tanto do que levava o guião como do que sustentava o estandarte, pois eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão seguia por uma encosta, no cimo da qual haveria o sermão do encontro.

Um limpido ceu de março cobria os campos, que principiavam a reviver para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes, que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro, só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel, quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga. Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador.

A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo, ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo. Elle encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade! Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no logar mais intimo da alma.

Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o discurso, quil-o ornamentar com a conversão d’um infiel. O infiel era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder extraordinario da divina palavra.