Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava, attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador, ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça. Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente:
—Rende-te Centurião!
—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e precatoria.
O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto:
—Não me rendo!
O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse:
—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno.
Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a cabeça com a lança.
O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção, continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou, deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o, supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo rende-te, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o Centurião respondeu cathegorico: