Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor, tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua propria mãe.

As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier, achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com moderação:

—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.

—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.

Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de páu—opinavam.

O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras soltas, gritos, creanças a chorar...

O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir. Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá, elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.

Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o Centurião clamando: