Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão, que se iria passar?
O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam estar atemorizadas, pela subita colera do professor.
Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:
—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão fortes em analyse, como na bregeirice.
Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de si, um ambiente de respeito.
A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava resolvido a amedrontar a propria consciencia.
Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de humildade ou compuncção o tocaria!