O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores, dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.
Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição. Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só, limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:
—Como isto é bello! Como isto é bello!
Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral. O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:
—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?
—Que foi?—perguntou.
—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!
Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse, esforçando-se por se mostrar tranquillo:
—A truta grande, que anda ahi no rio!?