—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento d’um braço.
Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna. Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum Senhor fóra é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:
—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.
N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.
O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.
Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes. A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um conhecimento para elle inestimavel.
—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!
—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz, abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.