—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou metter o anzol, mesmo na guela!
E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de gozo considerou:
—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente... Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...
Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de batalha era aquelle.
De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.
Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos. Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos, offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:
—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? Ai! que regalo.
O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.
Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento. Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha; porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas aguas correntes.