Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões, fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e disse encostando a canna ao canto:
—Vamos primeiro acabar as licções.
Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção, reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso do Esteves, que fallou:
—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...
O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:
—O senhor viu-o passar!?
—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli apparecesse, o mandasse chamar.
Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia. Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.